Ecologia
na Terra e na Poesia

O
pequeno agricultor do interior de Pelotas, Marco Gottinari,
descobriu na música e na agroecologia uma forma
de viver em harmonia com a natureza. Aos 42 anos,
casado e pai de dois filhos, ele experimenta novas
formas de produzir alimentos saudáveis e preservar
a natureza, ao mesmo tempo em que se prepara para
lançar, no mês de abril, o seu primeiro
CD.
Sistemas
de irrigação por infiltração,
criação de mudas de árvores frutíferas
nativas e o trabalho com turismo rural na sua propriedade
de 7 hectares convivem com o violão e a poesia.
Filho de pequenos agricultores, Marco Gottinari sempre
conviveu com a música em sua casa.
Ele
conta que, antes, trabalhava com agricultura convencional,
utilizando maquinário pesado e defensivos químicos.
Sua transição para a agricultura ecológica
ocorreu após um incêndio no seu galpão,
no final de 2003, que destruiu os equipamentos que
utilizava para trabalhar na lavoura.
"Dentro
desse galpão, eu tinha tratores, canos de irrigação,
sombrites, enfim, o material básico para eu
trabalhar na agricultura convencional. A diferença
para a agricultura convencional para a agricultura
ecológica já está aí.
Hoje, eu trabalho só com uma enxada, para fazer
alguns lugares. Não preciso mexer muito na
terra, não lavro mais. Apesar de cansar mais,
isso me dá muito mais prazer. Antes, eu trabalha
com muito mais máquinas, não encontrava
prazer em trabalhar, e jamais encontraria na agricultura
convencional. A agricultura convencional cobra, e
não te dá retorno que não seja
material", conta.
Foi
assim que Marco transformou uma tragédia numa
forma de levar uma vida mais saudável e feliz.
"A partir deste momento é que eu comecei
a trabalhar efetivamente com a agricultura ecológica
e com a música. E hoje, também, com
o turismo. E as coisas vão se aglomerando,
num caminho só", diz.
Marco
pretende lançar em abril o seu primeiro CD,
que leva o nome de Interior. Cada pessoa que adquire
o disco é convidada para participar, no final
do ano, de um plantio coletivo de árvores às
margens do Arroio Pelotas, que sofre o desmatamento
da mata ciliar. Para cada CD vendido, ele promete
plantar dez mudas de árvore nativa. O músico
agricultor explica porque o seu primeiro disco vai
se chamar "Interior".
"Por
eu estar diretamente ligado à natureza, naturalmente
a música fala muito disso. Fala muito de natureza,
e de amor, esse amor universal. O CD chama-se 'Interior',
tentando mostrar um duplo sentido. 'Interior' de colônia,
que é o lugar onde eu moro, mas principalmente
o interior nosso, esta busca que temos que fazer a
cada momento, que está dentro de nós.
Então, o CD se chama 'Interior' por isso também",
explica.
A
poesia e o trabalho na terra vão dando a Marco
Gottinari a consciência de que o respeito à
natureza é a saída para a humanidade.
Para ele, a agricultura convencional, com seus agrotóxicos
e transgênicos, está deixando o mundo
doente.
"O
que a gente comenta muito, eu e minha mulher, é
que nós vivemos num mundo doente. Na essência
para nos mantermos vivo, que é a alimentação,
nós já começamos a comer errado,
beber, manter vícios. Eu vejo a agricultura
convencional como um grande engano para quem trabalha
nela. Eu trabalhei nela e não tive lucro nenhum,
porque na hora de fechar o caixa nunca tem lucro,
precisamos dos bancos de novo, para fazer outra safra,
e assim é uma roda", diz.
Sementes
de milho crioulo, experiências com arroz ecológico,
mudas de pitangueira e araçá. É
assim que Marco e sua família encontram a saída
- ou a entrada, como ele costuma dizer.
"Mas
a reviravolta está acontecendo também.
Assim como eu, várias pessoas estão
entrando, buscando uma alimentação melhor,
cobrando da própria agricultura uma produção
com mais qualidade, que tenha mais essência,
e não tecnologia. A minha visão sobre
a agricultura convencional é muito preocupante,
por isso que eu saí dela. Eu não quero
participar desse engano, e dessa forma de levar a
doença às pessoas. Se o povo está
doente hoje, a agricultura infelizmente é o
grande pavio para essas doenças todas".
O
CD Interior tem onze canções de Marco
Gottinati, e uma faixa especial de seu amigo percussionista
Renato Gervini. Participam do CD os músicos
Daniel Zanotelli, Carlos Ferreira, Miguel Tejera e
Leonardo Oxley.
Reportagem:
Luiz Renato Almeida